Ao descer do ônibus se deparou com uma mulher no chão. Short, camiseta e tênis. Tudo simples e limpo. Ao lado, uma bolsa esportiva aparentemente cheia. As pessoas desciam e desviavam o passo, mas não o olhar, pois este não parece ter-se atentado àquela figura de bruços. A mulher estava de olhos fechados, mas era possível perceber que estava acordada. Parou ao seu lado e perguntou o que havia acontecido. Ela rolou e balbuciou algo incompreensível. Parecia sentir dor. Duas senhoras que passavam também se compadeceram. Ao ver aquele grupo de três pessoas em círculo, finalmente um segurança se aproximou. Homem alto, negro, com o uniforme da empresa terceirizada e o sotaque que denunciava ser um estrangeiro. Seu colega continuou em seu posto, de onde, diga-se de passagem, podiam ver a mulher no chão antes que outras pessoas se interessassem pela cena. O segurança fez uma chamada de rádio e uma outra funcionária, também negra, apareceu, conversou com a mulher, a ajudou a levantar e a colocou sentada em um banco. "Ela será atendida devidamente?", perguntou e foi embora com um nó na garganta, lágrimas nos olhos e uma certeza: as pessoas não teriam desviado de uma mulher branca.
Apresentação
Você tem noção sobre quem é essa galera?
Eu mudo sempreee?
Metamorfose ambulante ou velha opinião formada sobre tudo?
Reflexões sobre manifestações contra Reforma da Previdência.
Reforma da Previdência de 2003 (govern Lula) e 2017 (governo Temer).
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
domingo, 22 de setembro de 2019
O estudo da língua
No calor das bocas morrem as palavras que não precisam mais ser ditas. Da morte das palavras nascem os sussurros, os gemidos, os gritos sufocados. Não é preciso verbalizar. Há outras maneiras de comunicar. Gestos, entonações. Isso faz parte da análise conversacional. Pode parecer tonto, simplista, mas, ao dizer "não para", depreende-se que estamos gostando, que estamos atingindo o ápice. A isso chamamos pragmática. Sob uma outra análise, o uso do imperativo constitui-se como um ato de fala. Pedir, ordenar, implorar são ações, afinal. E tudo faz parte de algo muito maior. O gemido é uma atitude responsiva, o que significa que seu corpo no meu é um enunciado concreto. Nós somos um texto coeso e coerente o suficiente para ser um todo dotado de sentido dentro da nossa esfera de atividade humana. Um belo exemplo de gênero discursivo. Quanto ao estilo, este é individual e social, respectivamente, uma vez que depende dos nossos valores axiológicos. Por isso o nosso é único. E dentro desta relação dialógica e polifônica, há ainda algo novo: a multimodalidade, que nos permite significar de várias maneiras, usando e abusando das multisemioses.
sábado, 9 de junho de 2018
A sua
Ele a tocou... estava úmida, quente,
tremia. "Você está bem?", perguntou. "Posso parar se você
quiser", disse em tom de promessa. Ela não respondeu, apenas segurou suas
mãos bem forte, de modo a fazer com que ele não a soltasse, nunca. Aquele calor
era exatamente como ela imaginara, como ela desejara. Mas aquele cheiro, aquela
sensação, aquele rosto sobre o dela, aquelas cores meio indefinidas no
quarto... isso tudo era muito melhor do que tudo o que ela pensou sobre como
seria aquele momento. Ele segurou o seu rosto entre suas mãos grandes, suadas
e, absurdamente, seguras. Ela o olhou nos olhos, bem fundo, mergulhando de um
jeito como nunca havia tido coragem de fazer antes, e aceitou o beijo dos
olhos, antes que as bocas se tocassem. Lábios quentes e calmos que demonstravam
ter absoluta confiança em cada movimento, que sabiam exatamente a intensidade
do toque em cada parte do seu corpo. Pensou em implorar pelo fim daquela doce
tortura, mas descobriu-se masoquista. Ele parecia sentir um estranho tipo de
prazer ao vê-la em agonia... seu rosto, ainda belo, contorcia-se e transfigurava-se, mas ela não
teve medo, pois sabia, naquele momento, que podia confiar nele, inclusive,
depositou-se, literal e metaforicamente, em seus braços. Deixou que seus dedos
desenhassem suas curvas e seu destino. Naquele momento era sua de todas as
maneiras possíveis e imagináveis. Naquele momento tudo e todos se tornaram uma
coisa só. As respirações rápidas, descompassadas, os gemidos sufocados, as
pernas entrelaçadas: dois corpos, apenas um clímax!
E quando tudo termina são dois
novamente, mas não são os mesmos. Tudo mudou. Ele a abraça por trás e beija o
seu ombro. Ela sorri de satisfação, espera ele adormecer, o que não demora
cinco minutos, levanta, veste-se e o olha pela última vez em toda a sua vida.
Naquele momento era sua e apenas sua...
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
“É que a cada dia eu acredito um pouco menos... e um pouco
menos, e um pouco menos... E isso... É uma droga”, disse o protagonista de sua
série preferida para sua ex namorada, por quem ele ainda era apaixonado, que estava
noiva de seu melhor amigo.
Continuando a cena, a ex namorada diz que ele voltaria a
acreditar. E, é claro, que no final da série ele voltou a acreditar, encontrou
o amor de sua vida e realizou seus sonhos. Mas era apenas uma série, não é?
Uma vez lera que comédias românticas eram prejudiciais, pois
faziam as pessoas terem esperança de que tudo daria certo no final. O
protagonista sempre correria para o aeroporto e impediria que a mocinha
embarcasse no avião dizendo “eu te amo”; a protagonista sempre acabaria
percebendo que o cara bonitão é um idiota e ficaria com seu melhor amigo mais
nerd, que ficou esperando por ela durante anos... mas os filmes nunca mostram o
que acontece depois.
Ah, foda-se o que acontece depois. Ela queria ter o durante.
Não a cena do aeroporto, (credo, quem quer alguém que atrapalhe sua viagem, sua
carreira, seus planos?) mas o que a ficção não mostra: o sorriso ao acordar e
ver um “bom dia” no WhatsApp; o frio na barriga ao imaginar o encontro do final
de semana; a dorzinha no coração de cada despedida; o tesão da manhã e tudo
mais que acompanha uma relação normal e saudável, incluindo os problemas.
Ela não era uma princesa da Disney. Nunca acreditou em “felizes
para sempre”, ainda assim esperava encontrar alguém que estivesse na mesma
sintonia. Mas a vida não é uma comédia romântica e a cada dia ela acreditava um pouco menos... e um pouco
menos, e um pouco menos... E isso era uma droga.
domingo, 22 de outubro de 2017
O ano era 2011 e ela tinha uma vida inteira pela frente. Voou por bons ares, fez novos amigos, viveu novas loucuras, amou novos amores. Todo final de semana precisava se reunir com as amigas para colocá-las a par de todas as novidades, que vinham como avalanches. Uma fugazzeta e uma Coca Cola para curar a ressaca e dar motivo para se reunirem em um ambiente neutro onde poderiam compartilhar informações sobre as bebedeiras e as loucuras.
Andar a pé e a esmo pela cidade, de manhã, tarde, noite, madrugada, guiada apenas pelo vento frio e carregado com o cheiro de maconha e urina de cachorro. Melhor cheiro do mundo. E assim descobrir um bar que vendia chopp a dez pesos e ainda dava amendoim de graça; a sensação de fazer sexo em lugares públicos; fazer anjos na neve; estar no topo de mundo (na verdade, da América) e sentir que era a dona da porra toda.
O ano é 2017. Uma das companheiras de fugazzeta vem visitá-la. Vão a um restaurante argentino para deixar as lembranças mais vívidas. Sentam-se e, nem tão de repente assim, percebe que não tem o que falar. A última vez que se viram foi na formatura dessa amiga, há três anos. Parando para pensar, foi a última aventura que viveu: pegar um avião para ir a Porto Alegre, perder um ônibus e ficar perdida em uma cidade desconhecida, ficar tri bêbada em uma festa e sair de lá com um cara desconhecido, perder o celular, perder o avião, tudo em um espaço de 48 horas.
E é isso. A amiga pergunta como vai a vida. Ah, sabe como é, tenho trabalhado de segunda a sábado. Não saio muito. E os relacionamentos? Não tenho nenhum há alguns anos. Nem um contatinho? Não. Silêncio. Pelo o que acompanho no Facebook, você é muito antenada em séries. Ao que está assistindo ultimamente? Finalmente algo sobre o que pode falar com propriedade. Puts, quebrar a perna tinha doído menos. Falando nisso, usou o acidente para justificar o hiato em que sua vida se encontra, ainda que, na realidade, essa pasmaceira tenha começado logo após sua formatura.
Moro na casa dos meus pais, é mais prático. Vou prestar mestrado. É o mestrado profissional e o processo seletivo não é muito exigente, além de ser mais voltado para o que eu quero (?). Sou efetiva em dois cargos públicos e, apesar de tudo, gosto do que faço. E assim justifica o que considera fracassos em sua vida, que antes se mostrara tão promissora.
Seus amigos estão casados, defendendo mestrados, ingressando no doutorado, fazendo pós graduação no exterior. Logo alguns vão começar a ter filhos, a se sentirem confortáveis com suas vidas e conquistas. Mas onde ela estará?
Respira, inspira e não pira. Poderia ser pior. Afinal de contas, é tão ruim assim ter dois empregos estáveis? Uma família que a ama? Amigos felizes e realizados?
E, mais uma vez, tenta se convencer de que está tudo bem. Afinal, não estamos todos um pouco perdidos?
Vai exercitar sua grande qualidade de apreciadora de séries, preparando-se para mais uma semana de seis dias de trabalho, sabendo que quando a cabeça ficar vazia e estiver sozinha no seu quarto, sem companhia e dinheiro para ir nem mesmo ao cinema, vai pensar mais uma vez "que porra eu estou fazendo da minha vida?".
E assim vai seguindo o baile, ainda que pareça não estar acompanhando muito bem o ritmo da música.
Andar a pé e a esmo pela cidade, de manhã, tarde, noite, madrugada, guiada apenas pelo vento frio e carregado com o cheiro de maconha e urina de cachorro. Melhor cheiro do mundo. E assim descobrir um bar que vendia chopp a dez pesos e ainda dava amendoim de graça; a sensação de fazer sexo em lugares públicos; fazer anjos na neve; estar no topo de mundo (na verdade, da América) e sentir que era a dona da porra toda.
O ano é 2017. Uma das companheiras de fugazzeta vem visitá-la. Vão a um restaurante argentino para deixar as lembranças mais vívidas. Sentam-se e, nem tão de repente assim, percebe que não tem o que falar. A última vez que se viram foi na formatura dessa amiga, há três anos. Parando para pensar, foi a última aventura que viveu: pegar um avião para ir a Porto Alegre, perder um ônibus e ficar perdida em uma cidade desconhecida, ficar tri bêbada em uma festa e sair de lá com um cara desconhecido, perder o celular, perder o avião, tudo em um espaço de 48 horas.
E é isso. A amiga pergunta como vai a vida. Ah, sabe como é, tenho trabalhado de segunda a sábado. Não saio muito. E os relacionamentos? Não tenho nenhum há alguns anos. Nem um contatinho? Não. Silêncio. Pelo o que acompanho no Facebook, você é muito antenada em séries. Ao que está assistindo ultimamente? Finalmente algo sobre o que pode falar com propriedade. Puts, quebrar a perna tinha doído menos. Falando nisso, usou o acidente para justificar o hiato em que sua vida se encontra, ainda que, na realidade, essa pasmaceira tenha começado logo após sua formatura.
Moro na casa dos meus pais, é mais prático. Vou prestar mestrado. É o mestrado profissional e o processo seletivo não é muito exigente, além de ser mais voltado para o que eu quero (?). Sou efetiva em dois cargos públicos e, apesar de tudo, gosto do que faço. E assim justifica o que considera fracassos em sua vida, que antes se mostrara tão promissora.
Seus amigos estão casados, defendendo mestrados, ingressando no doutorado, fazendo pós graduação no exterior. Logo alguns vão começar a ter filhos, a se sentirem confortáveis com suas vidas e conquistas. Mas onde ela estará?
Respira, inspira e não pira. Poderia ser pior. Afinal de contas, é tão ruim assim ter dois empregos estáveis? Uma família que a ama? Amigos felizes e realizados?
E, mais uma vez, tenta se convencer de que está tudo bem. Afinal, não estamos todos um pouco perdidos?
Vai exercitar sua grande qualidade de apreciadora de séries, preparando-se para mais uma semana de seis dias de trabalho, sabendo que quando a cabeça ficar vazia e estiver sozinha no seu quarto, sem companhia e dinheiro para ir nem mesmo ao cinema, vai pensar mais uma vez "que porra eu estou fazendo da minha vida?".
E assim vai seguindo o baile, ainda que pareça não estar acompanhando muito bem o ritmo da música.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
A desconstrução nossa de cada dia
Há algumas semanas atrás eu fiz um post no Facebook que continha preconceito linguístico. Como todos deveriam saber, o preconceito linguístico está diretamente ligado ao preconceito social (e para quem não sabe, recomendo a leitura de Preconceito Linguístico, do professor Marcos Bagno). Sim, eu conheço bem o conceito e pode parecer absurdo que eu, que fiz estágio em Sócio Linguística e Análise de Discurso, reproduza esse tipo de preconceito. Mas se tem algo que eu aprendi nessa tal de militância de internet é que ninguém é totalmente desconstruído.
Quando eu sou questionada com relação a alguma coisa, minha primeira reação é tentar me defender, mas depois eu penso, eu leio, pesquiso e faço o que mais for preciso para ser uma pessoa melhor.
Outra coisa que eu aprendi com a internet é que gosto é construção social. Ou seja, quando eu postei algo dizendo que procurava um parceiro que não falasse ou escrevesse errado, era a sociedade que me rodeia que estava sendo refletida nas minhas escolhas amorosas. Isso faz de mim menos preconceituosa? Obviamente, NÃO. Mas o fato de eu ter consciência disso é meio caminho andado para desconstruir este meu preconceito. Agora depende de mim mudar.
Agora que já falamos de mim, vamos conversar sobre você. Que preconceitos você carrega dentro si? Você já parou para pensar se suas escolhas não estão permeadas de preconceitos? E suas relações? Já parou para pensar se você se apaixonaria por seu/sua parceira se ele/ela fosse negro/negra? Você teria se dado a chance de conhecer afetivamente seu/sua parceiro/parceira se a pessoa fizesse a limpeza ao invés de ser sua companheira de trabalho?
Me disseram que eu estava perdendo a chance de conhecer pessoas muito legais por causa do meu preconceito. E isso é um fato indiscutível. Mas sabe o que é um fato discutível: dos meus amigos com formação universitária, nenhum tem um relacionamento amoroso com alguém que fuja do padrão (físico e social). Você já parou para pensar nisso? Você acredita que isso tenha a ver com o destino, apenas? Será que você se apaixonou pela pessoa porque estava no lugar certo, na hora certa? Ué, por que você reparou nessa pessoa, mas não na que estava tirando o lixo? Você já se perguntou isso?
Com que olhar nós enxergamos as pessoas ao nosso redor? Como escolhemos amigos? Como escolhemos parceiros amorosos? Será que você não tem um preconceito de estimação que se esconde por trás de "é questão de gosto", "foi o destino", "a gente não escolhe por quem se apaixona"?
Responda a estas perguntas com sinceridade para você mesmo.
Não sei você, mas eu sofro todos os dias com este tipo de pergunta. Na verdade, acredito que estes questionamentos me afastam mais dos relacionamentos do que o meu preconceito. E entenda isso como quiser.
Quando eu sou questionada com relação a alguma coisa, minha primeira reação é tentar me defender, mas depois eu penso, eu leio, pesquiso e faço o que mais for preciso para ser uma pessoa melhor.
Outra coisa que eu aprendi com a internet é que gosto é construção social. Ou seja, quando eu postei algo dizendo que procurava um parceiro que não falasse ou escrevesse errado, era a sociedade que me rodeia que estava sendo refletida nas minhas escolhas amorosas. Isso faz de mim menos preconceituosa? Obviamente, NÃO. Mas o fato de eu ter consciência disso é meio caminho andado para desconstruir este meu preconceito. Agora depende de mim mudar.
Agora que já falamos de mim, vamos conversar sobre você. Que preconceitos você carrega dentro si? Você já parou para pensar se suas escolhas não estão permeadas de preconceitos? E suas relações? Já parou para pensar se você se apaixonaria por seu/sua parceira se ele/ela fosse negro/negra? Você teria se dado a chance de conhecer afetivamente seu/sua parceiro/parceira se a pessoa fizesse a limpeza ao invés de ser sua companheira de trabalho?
Me disseram que eu estava perdendo a chance de conhecer pessoas muito legais por causa do meu preconceito. E isso é um fato indiscutível. Mas sabe o que é um fato discutível: dos meus amigos com formação universitária, nenhum tem um relacionamento amoroso com alguém que fuja do padrão (físico e social). Você já parou para pensar nisso? Você acredita que isso tenha a ver com o destino, apenas? Será que você se apaixonou pela pessoa porque estava no lugar certo, na hora certa? Ué, por que você reparou nessa pessoa, mas não na que estava tirando o lixo? Você já se perguntou isso?
Com que olhar nós enxergamos as pessoas ao nosso redor? Como escolhemos amigos? Como escolhemos parceiros amorosos? Será que você não tem um preconceito de estimação que se esconde por trás de "é questão de gosto", "foi o destino", "a gente não escolhe por quem se apaixona"?
Responda a estas perguntas com sinceridade para você mesmo.
Não sei você, mas eu sofro todos os dias com este tipo de pergunta. Na verdade, acredito que estes questionamentos me afastam mais dos relacionamentos do que o meu preconceito. E entenda isso como quiser.
quinta-feira, 16 de março de 2017
Reflexões sobre manifestações contra Reforma da Previdência
Nunca me esquecerei da primeira vez que estive em Brasília. Eu tinha entre 15 e 16 anos. Cheguei bem cedo no Sindicato onde meu pai era diretor e caminhamos para a manifestação CONTRA a Reforma da Previdência. Eu observei muito as pessoas durante aquela viagem. Dava pra sentir que elas estavam desapontadas com a reforma arquitetada no governo de um ex-sindicalista.
Embora o cansaço da viagem, eu fiquei maravilhado com tudo que vi. Aos meus 15-16 anos estava tendo uma experiência bastante singular. Desde o enorme estacionamento dos ônibus vindos do Brasil todo às palavras de ordem que era proferidas na manifestação. Em um momento, o deputado, até então do PT, Babá apareceu no ato e eu fui o responsável por tirar a foto do meu pai com ele e que ficou durante um bom tempo exposta na parede do Sindicato de São Vicente-SP.
Os capítulos políticos vocês já sabem, a Reforma da Previdência proposta por Lula foi aprovada e os deputados do PT que foram contrários a reforma foram expulsos do partido e posteriormente fundaram o PSOL. Toda aquela experiência me fez prestar mais atenção naquilo que acontecia no Sindicato. Ficou na minha mente o questionamento se eles continuariam defendendo o governo que estava retirando direitos dos trabalhadores. A resposta foi positiva. Esse fato somado às questões políticas, que passei a acompanhar em minha cidade, me fizeram distanciar da política partidária.
Essa experiência que tive com meu pai, me faz lamentar o não envolvimento com o movimento estudantil, nas universidades públicas onde passei, mas nesse ambiente sindical aprendi muito. Aprendi a importância da organização. A importância de saber e questionar com quem você está organizado. De ter bem claro o seu posicionamento político sobre as coisas antes de tomar a decisão de se juntar com um ou com outro grupo.
Anos depois, e agora falando de 2016, durante o movimento político pré-golpe decidi me articular de forma mais organizada, embora um tanto quanto independente, e por isso me filiei ao PSOL. (Pra falar a verdade, nem lembrava muito do fato de ter tido presente em um momento importante na história da criação do partido.) Analisando o posicionamento do partido, julguei importante nesse ambiente de golpes diários de um governo golpista lutar dessa maneira. E eis que me vejo em 2017 (preste a completar 30 anos) novamente em uma manifestação contra a Reforma da Previdência: agora trabalhador, agora consciente, agora partidarizado e tantos outros agoras diferentes de 2003.
Que análise você faz sobre a manifestação contra a reforma da previdência de 15 de março de 2017? Essa resposta é muito difícil. Penso eu, que na teoria precisamos superar um paradigma político, mas na prática ela está distante de acontecer. Como que uma manifestação vira palanque para um suposto pré-candidato que quando presidente usou de artimanha semelhante? Ao mesmo tempo, o jogo bipolarizado de hoje nos diz que temos apenas duas iniciativas: ou a gente escolhe uma pseudo-esquerda (ou esquerda lulista) ou uma direita raivosa que está ganhando espaço.
As lembranças me fazem reforçar a ideia de que olhar o passado é relevante para o entendimento do presente e para uma projeção das expectativas do futuro. Não dá pra cometermos o mesmo erro. É preciso quebrar essa bipolarização da política brasileira e caminharmos para um novo paradigma político com propostas coerentes desde a fundação.
Embora o cansaço da viagem, eu fiquei maravilhado com tudo que vi. Aos meus 15-16 anos estava tendo uma experiência bastante singular. Desde o enorme estacionamento dos ônibus vindos do Brasil todo às palavras de ordem que era proferidas na manifestação. Em um momento, o deputado, até então do PT, Babá apareceu no ato e eu fui o responsável por tirar a foto do meu pai com ele e que ficou durante um bom tempo exposta na parede do Sindicato de São Vicente-SP.
Os capítulos políticos vocês já sabem, a Reforma da Previdência proposta por Lula foi aprovada e os deputados do PT que foram contrários a reforma foram expulsos do partido e posteriormente fundaram o PSOL. Toda aquela experiência me fez prestar mais atenção naquilo que acontecia no Sindicato. Ficou na minha mente o questionamento se eles continuariam defendendo o governo que estava retirando direitos dos trabalhadores. A resposta foi positiva. Esse fato somado às questões políticas, que passei a acompanhar em minha cidade, me fizeram distanciar da política partidária.
Essa experiência que tive com meu pai, me faz lamentar o não envolvimento com o movimento estudantil, nas universidades públicas onde passei, mas nesse ambiente sindical aprendi muito. Aprendi a importância da organização. A importância de saber e questionar com quem você está organizado. De ter bem claro o seu posicionamento político sobre as coisas antes de tomar a decisão de se juntar com um ou com outro grupo.
Anos depois, e agora falando de 2016, durante o movimento político pré-golpe decidi me articular de forma mais organizada, embora um tanto quanto independente, e por isso me filiei ao PSOL. (Pra falar a verdade, nem lembrava muito do fato de ter tido presente em um momento importante na história da criação do partido.) Analisando o posicionamento do partido, julguei importante nesse ambiente de golpes diários de um governo golpista lutar dessa maneira. E eis que me vejo em 2017 (preste a completar 30 anos) novamente em uma manifestação contra a Reforma da Previdência: agora trabalhador, agora consciente, agora partidarizado e tantos outros agoras diferentes de 2003.
Que análise você faz sobre a manifestação contra a reforma da previdência de 15 de março de 2017? Essa resposta é muito difícil. Penso eu, que na teoria precisamos superar um paradigma político, mas na prática ela está distante de acontecer. Como que uma manifestação vira palanque para um suposto pré-candidato que quando presidente usou de artimanha semelhante? Ao mesmo tempo, o jogo bipolarizado de hoje nos diz que temos apenas duas iniciativas: ou a gente escolhe uma pseudo-esquerda (ou esquerda lulista) ou uma direita raivosa que está ganhando espaço.
As lembranças me fazem reforçar a ideia de que olhar o passado é relevante para o entendimento do presente e para uma projeção das expectativas do futuro. Não dá pra cometermos o mesmo erro. É preciso quebrar essa bipolarização da política brasileira e caminharmos para um novo paradigma político com propostas coerentes desde a fundação.










