O ano era 2011 e ela tinha uma vida inteira pela frente. Voou por bons ares, fez novos amigos, viveu novas loucuras, amou novos amores. Todo final de semana precisava se reunir com as amigas para colocá-las a par de todas as novidades, que vinham como avalanches. Uma fugazzeta e uma Coca Cola para curar a ressaca e dar motivo para se reunirem em um ambiente neutro onde poderiam compartilhar informações sobre as bebedeiras e as loucuras.
Andar a pé e a esmo pela cidade, de manhã, tarde, noite, madrugada, guiada apenas pelo vento frio e carregado com o cheiro de maconha e urina de cachorro. Melhor cheiro do mundo. E assim descobrir um bar que vendia chopp a dez pesos e ainda dava amendoim de graça; a sensação de fazer sexo em lugares públicos; fazer anjos na neve; estar no topo de mundo (na verdade, da América) e sentir que era a dona da porra toda.
O ano é 2017. Uma das companheiras de fugazzeta vem visitá-la. Vão a um restaurante argentino para deixar as lembranças mais vívidas. Sentam-se e, nem tão de repente assim, percebe que não tem o que falar. A última vez que se viram foi na formatura dessa amiga, há três anos. Parando para pensar, foi a última aventura que viveu: pegar um avião para ir a Porto Alegre, perder um ônibus e ficar perdida em uma cidade desconhecida, ficar tri bêbada em uma festa e sair de lá com um cara desconhecido, perder o celular, perder o avião, tudo em um espaço de 48 horas.
E é isso. A amiga pergunta como vai a vida. Ah, sabe como é, tenho trabalhado de segunda a sábado. Não saio muito. E os relacionamentos? Não tenho nenhum há alguns anos. Nem um contatinho? Não. Silêncio. Pelo o que acompanho no Facebook, você é muito antenada em séries. Ao que está assistindo ultimamente? Finalmente algo sobre o que pode falar com propriedade. Puts, quebrar a perna tinha doído menos. Falando nisso, usou o acidente para justificar o hiato em que sua vida se encontra, ainda que, na realidade, essa pasmaceira tenha começado logo após sua formatura.
Moro na casa dos meus pais, é mais prático. Vou prestar mestrado. É o mestrado profissional e o processo seletivo não é muito exigente, além de ser mais voltado para o que eu quero (?). Sou efetiva em dois cargos públicos e, apesar de tudo, gosto do que faço. E assim justifica o que considera fracassos em sua vida, que antes se mostrara tão promissora.
Seus amigos estão casados, defendendo mestrados, ingressando no doutorado, fazendo pós graduação no exterior. Logo alguns vão começar a ter filhos, a se sentirem confortáveis com suas vidas e conquistas. Mas onde ela estará?
Respira, inspira e não pira. Poderia ser pior. Afinal de contas, é tão ruim assim ter dois empregos estáveis? Uma família que a ama? Amigos felizes e realizados?
E, mais uma vez, tenta se convencer de que está tudo bem. Afinal, não estamos todos um pouco perdidos?
Vai exercitar sua grande qualidade de apreciadora de séries, preparando-se para mais uma semana de seis dias de trabalho, sabendo que quando a cabeça ficar vazia e estiver sozinha no seu quarto, sem companhia e dinheiro para ir nem mesmo ao cinema, vai pensar mais uma vez "que porra eu estou fazendo da minha vida?".
E assim vai seguindo o baile, ainda que pareça não estar acompanhando muito bem o ritmo da música.
Andar a pé e a esmo pela cidade, de manhã, tarde, noite, madrugada, guiada apenas pelo vento frio e carregado com o cheiro de maconha e urina de cachorro. Melhor cheiro do mundo. E assim descobrir um bar que vendia chopp a dez pesos e ainda dava amendoim de graça; a sensação de fazer sexo em lugares públicos; fazer anjos na neve; estar no topo de mundo (na verdade, da América) e sentir que era a dona da porra toda.
O ano é 2017. Uma das companheiras de fugazzeta vem visitá-la. Vão a um restaurante argentino para deixar as lembranças mais vívidas. Sentam-se e, nem tão de repente assim, percebe que não tem o que falar. A última vez que se viram foi na formatura dessa amiga, há três anos. Parando para pensar, foi a última aventura que viveu: pegar um avião para ir a Porto Alegre, perder um ônibus e ficar perdida em uma cidade desconhecida, ficar tri bêbada em uma festa e sair de lá com um cara desconhecido, perder o celular, perder o avião, tudo em um espaço de 48 horas.
E é isso. A amiga pergunta como vai a vida. Ah, sabe como é, tenho trabalhado de segunda a sábado. Não saio muito. E os relacionamentos? Não tenho nenhum há alguns anos. Nem um contatinho? Não. Silêncio. Pelo o que acompanho no Facebook, você é muito antenada em séries. Ao que está assistindo ultimamente? Finalmente algo sobre o que pode falar com propriedade. Puts, quebrar a perna tinha doído menos. Falando nisso, usou o acidente para justificar o hiato em que sua vida se encontra, ainda que, na realidade, essa pasmaceira tenha começado logo após sua formatura.
Moro na casa dos meus pais, é mais prático. Vou prestar mestrado. É o mestrado profissional e o processo seletivo não é muito exigente, além de ser mais voltado para o que eu quero (?). Sou efetiva em dois cargos públicos e, apesar de tudo, gosto do que faço. E assim justifica o que considera fracassos em sua vida, que antes se mostrara tão promissora.
Seus amigos estão casados, defendendo mestrados, ingressando no doutorado, fazendo pós graduação no exterior. Logo alguns vão começar a ter filhos, a se sentirem confortáveis com suas vidas e conquistas. Mas onde ela estará?
Respira, inspira e não pira. Poderia ser pior. Afinal de contas, é tão ruim assim ter dois empregos estáveis? Uma família que a ama? Amigos felizes e realizados?
E, mais uma vez, tenta se convencer de que está tudo bem. Afinal, não estamos todos um pouco perdidos?
Vai exercitar sua grande qualidade de apreciadora de séries, preparando-se para mais uma semana de seis dias de trabalho, sabendo que quando a cabeça ficar vazia e estiver sozinha no seu quarto, sem companhia e dinheiro para ir nem mesmo ao cinema, vai pensar mais uma vez "que porra eu estou fazendo da minha vida?".
E assim vai seguindo o baile, ainda que pareça não estar acompanhando muito bem o ritmo da música.






